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A IA já está a correr. A organização ainda está em reunião

EM: LÍDER

Em poucas semanas, uma ferramenta de inteligência artificial fez o que antes demorava meses: acelerou o desenvolvimento de um produto numa empresa industrial centenária. Depois, o resultado ficou à espera de três níveis de aprovação. A ferramenta cumpriu. O organograma pediu mais tempo. 

Esta história repete-se em muitas empresas. Compram-se ferramentas, lançam-se projetos-piloto, formam-se equipas. Há entusiasmo e ganhos rápidos. Mas as decisões continuam lentas, uns experimentam, outros aguardam instruções e a transformação fica presa entre uma demonstração impressionante e a reunião seguinte. Quando os resultados ficam aquém, procura-se mais tecnologia ou formação. Só que a IA está a entrar em organizações desenhadas para um mundo mais previsível. E depressa torna visível aquilo que a organização ainda não conseguiu alinhar: prioridades, decisões e formas de trabalhar. 

Numa consultora de serviços que acompanhámos, todos os diretores afirmavam que a IA era uma prioridade. Pareciam alinhados. Um procurava eficiência, outro diferenciação, um terceiro redução de custos. Abaixo da mesma palavra existiam três destinos. Quando a liderança apontou em várias direções, as equipas esperaram. A IA tem este talento pouco referido: revela a organização que já existia. Expõe os silos, a lentidão das decisões, o medo de errar e a distância entre aquilo que a liderança anuncia e aquilo que o dia a dia permite. 

Uma cultura de autorização permanente ensina as pessoas a não arriscar, mesmo com acesso às melhores ferramentas. E quem sempre foi recompensado por proteger o seu território dificilmente começará a partilhar conhecimento por causa de um novo botão no ecrã. A tecnologia aprende depressa. As culturas têm outros ritmos. Entretanto, decorre uma transformação mais silenciosa. Enquanto os líderes falam de produtividade, competitividade e eficiência, há perguntas que raramente entram no PowerPoint: o que continuará a depender de mim? Que valor terei? Quem decide agora? Para quem as faz, estas perguntas são tudo menos tecnológicas. 

Obter resultados com IA exige uma direção partilhada, líderes que atribuam o mesmo significado às prioridades, autonomia para experimentar e confiança para aprender. Exige também conversas honestas sobre o que deve evoluir e sobre aquilo que a organização não quer perder pelo caminho.

Antes de investir na próxima ferramenta, talvez valha a pena olhar para a organização que a vai receber. 

Os líderes estão de acordo sobre o que pretendem alcançar? As pessoas têm espaço para experimentar? As decisões conseguem acompanhar a nova velocidade? A IA já está a correr. A pergunta é se a sua organização está preparada para correr com ela. 

Isabel Freire de Andrade, CEO da Bright Concept

Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’.